Tomás responde: o mal é algo?
Deve-se
dizer que, como o branco, também o mal se diz de dois modos. Pois, de um modo,
quando se diz branco, pode entender-se o que é sujeito da brancura; de outro
modo, branco se diz do que é branco enquanto branco, ou seja, do acidente
mesmo. E, semelhantemente, o mal pode entender-se, de um modo, como o que é
sujeito do mal, e neste sentido é algo; de outro modo, pode-se entender como o
próprio mal, e neste sentido não é algo, mas sim a privação mesma de algum bem
particular.
Para
maior compreensão disto, é preciso saber que propriamente o bem é algo enquanto
é apetecível, pois, segundo o Filósofo no livro I da Ética, definiram
corretamente o bem os que disseram ser o bem o que todas as coisas apetecem;
mas o mal se diz do que se opõe ao bem, donde ser conveniente que o mal seja o
que se opõe ao apetecível enquanto tal. É impossível, todavia, que este seja
algo, o que se manifesta por três razões.
Em
primeiro lugar, certamente, porque o apetecível tem razão de fim; mas a ordem
dos fins é, por assim dizer, também a ordem dos agentes. Com efeito, na medida
em que algum agente é mais elevado e mais universal, nesta mesma medida também
o fim por que atua é um bem mais universal, pois todo e qualquer agente atua
por um fim e por algum bem; e isto se mostra, patentemente, nas coisas humanas.
Sim, porque o governante de uma cidade tende a
um bem particular, que é o bem da cidade. Mas o rei, que é superior a ele,
tende a um bem universal, a saber: a paz do reino todo. Logo, não sendo próprio
das causas agentes proceder ao infinito, sendo porém necessário chegar a uma
primeira coisa que seja causa universal do ser, é necessário, além disso, que
seja um bem universal a que se reduzam todos os bens; e este não pode ser outro
senão aquele mesmo que é agente primeiro e universal; porque todas as vezes que
o apetecível move o apetite, sendo necessário, por outro lado, que o primeiro
motor não seja movido, é necessário que o apetecível primeiro e universal seja
o bem primeiro e universal, que se ocupa de todas as coisas por causa do seu
próprio apetite.
Logo, assim como é necessário que tudo quanto
há nas coisas proceda de uma causa primeira e universal de ser, assim também é
necessário que tudo quanto há nas coisas proceda de um bem primeiro e
universal. Ora, o que procede do bem
primeiro e universal não pode ser senão, unicamente, um bem particular, assim
como o que procede da causa primeira e universal de ser é algum ente
particular. Logo, é necessário que tudo quanto é algo nas coisas seja algum bem
particular, donde não poder, pelo fato mesmo de ser, opor-se ao bem. Razão por
que não cabe afirmar senão que o mal enquanto mal não é algo nas coisas, mas é
privação de algum bem particular, que inere a algum bem particular.
Em
segundo lugar, também isto é evidente, porque tudo quanto há nas coisas possui
alguma tendência para aquilo que lhe convém e o desejo natural dele. Ora, o que
tem razão de apetecível tem razão de bem. Logo, tudo quanto há nas coisas
convém com algum bem. O mal enquanto tal, todavia, não convém com o bem, mas
opõe-se a ele. Logo, o mal não é algo nas coisas. Além do mais, se o mal fosse
algo, não apeteceria nem seria apetecido por nada mais, e, por conseguinte, não
teria nenhuma ação nem movimento, dado que nada atua nem se move senão por
causa do apetite do fim.
Em
terceiro lugar, patenteia-se a mesma coisa pelo fato de que o próprio ser tem,
sobretudo, razão de apetecível; donde constatarmos que a cada coisa apetece
naturalmente conservar o seu ser: por um lado, afasta-se das coisas destrutivas
do seu ser, e, por outro, resiste a elas na medida das suas possibilidades. Assim,
o próprio ser, enquanto apetecível, é bom. Logo, é necessário que o mal, que se
opõe universalmente ao bem, se oponha, ademais, ao que é ser. O que porém é
oposto ao que é ser não pode ser algo.
Digo,
por conseguinte, que o mal não é algo, embora aquilo a que suceda ser mau seja
algo, uma vez que o mal não priva senão de um bem particular; assim como o ser
cego não é algo, ao passo que aquele a que sucede o ser cego á algo.

