15 abril 2015

52° Dia Mundial de Oração pelas Vocações

Mensagem do Papa para 52º Dia Mundial de Oração pelas Vocações
O êxodo, experiência fundamental da vocação



Amados irmãos e irmãs!

O IV Domingo de Páscoa apresenta-nos o ícone do Bom Pastor, que conhece as suas ovelhas, chama-as, alimenta-as e condu-las. Há mais de 50 anos que, neste domingo, vivemos o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Este dia sempre nos lembra a importância de rezar para que o «dono da messe – como disse Jesus aos seus discípulos – mande trabalhadores para a sua messe» (Lc 10, 2). Jesus dá esta ordem no contexto dum envio missionário: além dos doze apóstolos, Ele chamou mais setenta e dois discípulos, enviando-os em missão dois a dois (cf. Lc 10,1-16). Com efeito, se a Igreja «é, por sua natureza, missionária» (Conc. Ecum. Vat. II., Decr. Ad gentes, 2), a vocação cristã só pode nascer dentro duma experiência de missão. Assim, ouvir e seguir a voz de Cristo Bom Pastor, deixando-se atrair e conduzir por Ele e consagrando-Lhe a própria vida, significa permitir que o Espírito Santo nos introduza neste dinamismo missionário, suscitando em nós o desejo e a coragem jubilosa de oferecer a nossa vida e gastá-la pela causa do Reino de Deus.

15 fevereiro 2015

Desapego



​Os três pregos da cruz

O desapego das coisas puramente terrenas deveria ser uma meta para todo cristão decidido a agradar somente a Deus


O sorriso de Madre Teresa de Calcutá, sempre presente em toda e qualquer circunstância de sua vida, mesmo durante aqueles períodos de "noite escura", dos quais a bem-aventurada se lembrava com angústia em suas cartas, ainda hoje é capaz de impressionar. Quem olha para a imagem da beata enxerga o rosto de uma pessoa que, deixando-se consumir totalmente pelo fogo divino, fez desta nossa peregrinação terrestre um ato contínuo de amor e entrega a Deus. Ou seja, encontrou a felicidade, completando na própria carne as dores que faltaram aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja (cf. Cl 1, 24).


Certamente, um modelo de vida semelhante pode causar, não obstante admirações, grandes perplexidades. Ainda mais em uma sociedade que já não sabe lidar com o sofrimento. Como é possível ser feliz na dor? A resposta a essa pergunta está na cruz. A alegria do homem é fazer a vontade de Deus. Contudo, por se tratar de algo nem sempre fácil — ao contrário, consiste muitas vezes em um verdadeiro martírio —, o cumprimento dessa vontade exige um desprendimento heroico acerca de todo e qualquer apego, seja material seja afetivo. O exemplo primordial de abnegação vem, sobretudo, de Cristo no Horto das Oliveiras. Suando sangue, o Senhor diz: "Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua" (Lc 22, 42).

13 fevereiro 2015

O mistério da cruz

Nosso Senhor Crucificado – Medellín, Colômbia
O enigma da dor e o mistério da cruz estão muito presentes na nossa existência. Onde o homem deverá colocar seu olhar, quando o sofrimento se fizer sentir sobre si, às vezes de forma, dir-se-ia, até insuportável?

Olhai e contemplai esta imagem. É a imagem por excelência da dor. E o que ela nos fala? Eis que nos diz, no fundo da alma: “meu filho, Eu, teu Deus e teu Criador, assumi a natureza humana, abracei a cruz e deixei-me crucificar, para que compreendas e ame o sacrifício. Embora não tivesse necessidade de verter até a última gota de meu sangue infinitamente precioso para operar a Redenção, assim o quis, para que aprendas a aceitar o sofrimento”.

Nosso Senhor, o Inocente por excelência, veio até nós para nos obter o perdão de nossos pecados. Ensinou-nos, em sua pregação e por sua vida, que “sem o derramamento de sangue, não há perdão” (Hb 9, 22).

Nossa Senhora, Mãe das Dores, manteve-se de pé junto ao Crucificado; tornando-se deste modo, por assim dizer, a “Mestra da Sabedoria da Cruz”, pronta a ensinar-nos a sofrer aquilo que está nos planos de Deus com serenidade, fortaleza, confiança e dignidade. Que Ela nos sustente como a outros tantos “Joãos Evangelistas” que, embora fracos, souberam haurir desta fonte as graças do Mistério da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, e alcançaram a vitória. “Pela cruz, chega-se à luz”.

19 janeiro 2015

São Sebastião

Jovem e virgem, conhecido por sua alta posição social e militar, rapidamente sua vida se tornou exemplo para a crescente comunidade cristã que tomava conta do Império Romano pagão.

A imensa quantidade de brasileiros que ostenta o nome Sebastião permite imaginar o quanto aquele santo militar romano é admirado e venerado em nosso país, o que também ocorre em numerosas outras nações, especialmente do Ocidente. Crianças são batizadas com seu nome, paróquias o têm por padroeiro, igrejas o festejam como titular, bairros e cidades também a ele se vinculam na devoção ao santo que é tido como padroeiro dos soldados, arqueiros e atletas, sendo muito invocado no combate às epidemias. A Cidade Maravilhosa, uma das mais conhecidas em todo o mundo, tem por nome oficial "São Sebastião do Rio de Janeiro" (assim como a importante arquidiocese ali sediada), uma homenagem ao santo cujo nome era ostentado pelo então soberano português reinante à época em que a localidade recebeu a nominação.

Quem foi, porém, São Sebastião? Os registros oficiais são escassos a seu respeito, o que não impede que dele possamos ter muitas informações que emanam da feliz e indissociável combinação entre a história e a piedade popular, e que permite retratar, ainda que não exatamente a realidade, ao menos (o que é o mais importante) o espírito da realidade com que um militar cristão, servindo no exército de um dos mais sanguinários imperadores romanos, ajudou numerosas almas a não enfraquecerem na fé, consolando-as e permitindo-lhes trilhar de cabeça erguida o caminho do Paraíso; ademais, ele próprio não deixou, no momento oportuno, de declarar-se cristão, dando o testemunho e servindo de exemplo a numerosos outros seguidores de Jesus que enfrentavam as perseguições da Era dos Mártires, como foi chamado o período de busca e morte aos fiéis conforme ordenado pelo sanguinário imperador Deocleciano.

24 dezembro 2014

O Natal e a Cruz

Para alguns o Natal de 1075 foi um dos mais tristes da História; para outros, um dos mais conturbados. Mas o que diria o próprio São Gregório VII se pudesse nos narrar o acontecido nesse dia?


Natais de toda a História! Quem poderá ter notícia de tudo o que aconteceu nessas mais de duas mil noites? Quantos milagres, quantas graças recebidas e quantas comunicações do Infante Jesus às almas nesses abençoados dias?

Natais grandiosa ou humildemente celebrados; em templos magníficos ou em pequenas capelas, semelhantes em pobreza à gruta de Belém. Noites Santas comemoradas em meio a uma multidão ou entre os membros de uma pequena família. No entanto, contrariando a nota tônica de alegria de todos os Natais, alguns houve que lembram os sofrimentos que Nosso Senhor Jesus Cristo quis padecer já em sua entrada neste mundo.

Imagem do Menino Jesus venerada na
Casa Santiago, dos Arautos do
Evangelho, em Bogotá (Colômbia).
Caía copiosa chuva na cidade de Roma, na noite de 24 de dezembro de 1075. O frio era intenso, a atmosfera, pesada. Enfrentando as intempéries, o Papa Gregório dirigia-se à Basílica de Santa Maria Maior que, já naquela época, albergava as tábuas da manjedoura onde o Menino Jesus foi reclinado, depois de ter sido acolhido pelos braços virginais de sua Santíssima Mãe.

A primeira igreja da Cristandade dedicada à Mãe de Deus estava iluminada por uma quantidade considerável de candelabros, criando um ambiente de solenidade e de sacral mistério. O monge cisterciense Hildebrando, que dois anos antes fora eleito sucessor de Pedro e adotara o nome de Gregório VII, começou piedosamente a celebração do Santo Sacrifício e, fazendo eco ao cântico dos Anjos, entoou com firmeza o Gloria in excelsis Deo.

Durante a Celebração, cada vez que o olhar do Papa recaía sobre as tábuas sagradas, sentia ele um frêmito de emoção: há mais de dez séculos, o Verbo feito carne ali repousara! E, após a consagração, repousaria também em suas mãos, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, embora oculto sob as Sagradas Espécies.

Foi decerto com sentimentos como estes no coração que São Gregório VII celebrou a Santa Missa. Mas, quando se dirigia aos fiéis para dar-lhes a Comunhão, ouviu-se um ruído estrondoss e uma turba armada penetrou no templo. Muitos fiéis fugiram.

Comandados por um nobre romano chamado Cencia, os invasores avançaram contra o Papa, ferindo-o com punhaladas. Despojaram-no dos paramentos sagrados, manchados com o sangue que lhe fluía do rosto, arrastaram-no para fora e, sob a chuva torrencial, o encerraram numa torre perto do Panteão. Ao raiar da aurora, o povo de Roma, ao saber do local onde estava preso seu Pastor, reuniu-se impaciente junto ao Campidoglio e correu a libertá-lo.

Vendo-se cercado e temendo o furor da multidão ameaçadora, Cencio jogou-se aos pés de São Gregório, implorando-lhe clemência. Este perdoou o atentado cometido contra sua pessoa. Em reparação pela ofensa feita à Igreja, contudo, impôs-lhe como penitência uma peregrinação a Jerusalém. Dirigiu-se em seguida à janela de sua prisão e pediu ao povo romano que não fizesse mal algum ao sacrílego agressor, o qual pôde, assim, escapar livremente.

Liberto o Pontífice, o povo o conduziu em triunfo pelas ruas de Roma, em direção ao Palácio de Latrão, na certeza de que, após aqueles acontecimentos, ele desejaria cuidar das feridas, lavar- -se, trocar suas vestes e descansar. Este, porém, indicou à multidão outro destino: a Basílica de Santa Maria Maior. Sem entender o motivo de tal decisão, os fiéis obedeceram.

Lá chegando, São Gregório subiu ao altar e finalizou a Liturgia da Noite Santa, interrompida horas antes. Só depois se dirigiu ao Palácio Lateranense.

* * *

Para alguns, o Natal de 1075 foi um dos mais tristes da História; para outros, um dos mais conturbados. Mas se tivéssemos oportunidade de ouvir do próprio monge Hildebrando a narração do acontecido nesse dia, por certo ressaltaria ele o quanto, durante aquele episódio, seus sofrimentos estavam unidos aos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Conta uma piedosa tradição que o Menino Jesus, após dirigir o primeiro sorriso à sua Mãe virginal, abriu os braços em forma de cruz, prenunciando a Paixão. Se assim foi, quis Ele nos ensinar, com esse gesto, que em meio às alegrias natalinas os homens não devem se esquecer do objetivo de sua vinda ao mundo: operar a Redenção do gênero humano, pelo sacrifício de sua própria vida. Convidava, assim, todos os homens a se unirem às suas dores, nos séculos vindouros.

Foi o que fez São Gregório VII, ao longo de todo o seu Pontificado, marcado pela terrível perseguição do mais famoso potentado daquele tempo. (Revista Arautos do Evangelho, Dez/2012, n. 132, p. 50-51)